domingo, junho 27, 2004

O Reboque

Tenho sempre muita dificuldade em perceber porque é que o PS tem tanta atracção pelo abismo estratégico. Tenho sobretudo alguma dificuldade em perceber o porquê desta pressa em pedir eleições antecipadas se o actual primeiro ministro for convidado para presidir aos destinos da UE. Percebe-se mal esta pressa em não ficar para trás na corrida oposicionista a esta exigência extemporânea, sobretudo porque o PS tem muito mais a ganhar, do ponto de vista eleitoral, se não houver já eleições.
O PS nesta sua pressa irreflectida, esquece-se de que seria mais adequado mostrar-se responsavelmente próximo da serenidade e da seriedade do Presidente da República. Dar a entender que sabe que do ponto de vista legal e até democrático, o partido do poder tem toda a legitimidade para mudar o governo, porque essa é uma consequência das eleições de 2002. Por isso, ainda que eticamente, e não por via política, seja de considerar que os portugueses, in ultimas res, votaram num partido com uma cara e que agora lhe apresentam outra é, por via da Constituição, ao PR que cabe decidir se, do ponto de vista do bem maior do País, será melhor dissolver a AR e convocar novas eleições ou se é preferível manter o poder da actual maioria ainda que recentes eleições europeias permitam ler um profundo descontentamento no eleitorado face ao trabalho do actual governo.
Esta possibilidade de o primeiro ministro vir a ocupar a presidência da Comissão Europeia, desencadeou por parte deste, dos seus próximos e da comunicação social uma excitação púbere ao ponto de se ter tornado necessária uma intervenção do PR. Esta doença infantil do ex esquerdismo bem podia ficar solteira mas a quem convinha mostrar posição de estado e responsabilidade não o entendeu assim. Foi pena.
Todos sabemos que no PSD quando o guarda do covil parte, os lobos irrequietos partem para a luta fratricida. E um PSD autofágico só serve os interesses do PS.
Santana Lopes como primeiro ministro era o canto do cisne da coligação light. Uma posição ponderada do PS que se colasse à serenidade e responsabilidade do PR só teria vantagens. Curiosamente, quer Ferro Rodrigues quer os projectados candidatos a Vizir no lugar do Vizir, foram na mesma direcção.
Foi mais uma oportunidade arrastada na torrente das câmaras e dos telejornais.

sexta-feira, maio 28, 2004

Língua Portuguesa-0 Futebol-3

Eu sou adepto de futebol. É um desporto mágico e o seu fascínio justifica a sua popularidade. Para os políticos funciona como uma atracção irresistível, pela aparente popularidade que pode proporcionar se se souber estar do lado certo.
Vem isto a propósito da recente decisão do primeiro-ministro em estar presente na Final da Liga dos Campeões em detrimento da inauguração, por si anunciada no dia 15 de Maio, da Cátedra José Saramago na UNAM, Universidade Nacional Autónoma do México, a maior universidade da américa latina que conta há vários anos com um considerável número de docentes e estudantes de Língua Portuguesa, repartidos pelos seus três campus. Em vez de tomar uma decisão que de alguma forma indiciasse visão política e estratégica, donde se vislumbrasse importância que a Língua Portuguesa assume na agenda política deste governo, o primeiro-ministro preferiu a saída fácil, populista, e foi ao futebol. Língua Portuguesa-0 Futebol-1.
A oposição mostrou o seu desagrado com vigor, mas o seu simbólico reparo ficou-se pelo desrespeito pelas instituições e pelas relações de estado e o primeiro-ministro agradecido, respondeu como melhor sabe, com técnicas de agitação e propaganda tão ao seu gosto.
Completamente ausente das críticas ficou a Língua Portuguesa e não poderia ser de outra maneira já que a falta de consciência linguística e cultural que grassam entre governo e oposição são de tal ordem, que foram incapazes de ver onde estava o problema porque simplesmente não o conseguem reconhecer quando o têm perante si, nem o sentem como tal. Assim, a oposição atacou a árvore e deixou a floresta sossegada. Língua Portuguesa-0 Futebol-2.
Com a decisão que tomou o primeiro-ministro, mostrou a todos o lugar que a língua portuguesa ocupa nas preocupações do governo.
Por ter abordado a escolha do primeiro-ministro sem colocar a questão na sua verdadeira essência, a oposição mostrou porque existe um consenso nacional sobre uma não-política de língua portuguesa no mundo e não existe uma visão estratégica nacional para lidar com esta questão. Parece que todos acabam por concordar que as "coisas" da língua e da cultura são interessantes para os floreados e festas mas só isso e para isso.
Língua Portuguesa-0 Futebol-3 e o jogo ainda não acabou. Neste campeonato parece que a Língua Portuguesa está condenada a jogar para não descer de divisão. Neste campeonato a língua portuguesa em vez de ser parceiro é adversário e como parece que não é muito do agrado do público, está condenada a sucessivas derrotas por falta de adeptos e, na maior parte das vezes, ao que parece, até pela falta de jogadores.

sábado, maio 22, 2004

A hora do lobo

A noite preparava-se para passar para o dia seguinte. Mas quando tudo indicava uma noite vagamente salpicada pela chuva, eis que, por mor das teias que o governo tece, um ministro cai via telefone. Os mistérios da noite trazem-nos destas surpresas, causadas certamente pelo mau ambiente, ou pelas águas turvas das privatizações ou até, quem sabe, pela energética dança de cadeiras que se adivinhava em fundo. Este Governo gosta de lançar teias, mas não gosta que lhas teçam à sua volta. Quando se adivinhava a nova aurora, surge resplandecente, aproximando-se no horizonte, hei-lo, Cunha, que ao longe chega com a nova aurora, de nome lhe deram Arlindo, e veio para satisfazer o amo. E a paz volta à alcateia. E, no dia seguinte, à hora da novena, no covil se fez ajuntamento e todos à uma responderam em uníssono ao senhor, que no seu congresso os acolheu.

quarta-feira, maio 05, 2004

A nomeação de Simonetta Luz Afonso

Nada do que até agora foi referido como tendo sido dito por Simonetta Luz Afonso sobre a sua nomeação para a presidência do Instituto Camões, veja-se o artigo do Público de 4 de Abril, augura o que quer que seja de bom para a instituição ou, o que é mais grave, para a promoção da língua portuguesa no mundo. Não porque SLA não seja competente e profissional naquilo que até agora tem feito, isso até seria motivo de alguma esperança. As declarações que lhe são atribuídas é que denunciam um preocupante desconhecimento não só do Instituto como das tarefas que lhe estão atribuídas. SLA refugia-se em frases insípidas como "Os projectos para o Instituto Camões são os projectos que a lei orgânica define...", ou, "uma directora-geral segue a política do Governo e executa-a". Tudo isto é tão certo como estreito de vistas sobre a tarefa que aceitou tão rapidamente, e, aparentemente tão sem condições. A única referência interessante foi a que fez à atenção que pretenderá dar a Espanha, um mercado importante que tem sido negligentemente tratado. Mas o mais grave é que as palavras que lhe são atribuídas prenunciam uma total abandono do trabalho, que teima em não ser coerentemente feito, no que toca à promoção e difusão da Língua Portuguesa no mundo. Sobre a Língua Portuguesa nem uma palavra. Só cultura, leia-se só exposições e colaborações com museus, leia-se elitismo no pior sentido (nada tenho contra as elites desde que não sejam arrogantes e balofas o que é sempe sinónimo não de elite, mas de pedantismo ignorante). Mas mesmo esta intenção se lhe vai revelar difícil dado que, não havendo almoços grátis e não comportando o orçamento de gestão caseira quaisquer voos, não terá como pagar sequer os transportes das exposições, quanto mais a quem lhas faça, a não ser que resolva acabar com os leitorados que restam, nem terá dinheiro para comprar meia dúzia de livros para fingir que vai equipar as bibliotecas do Centros Culturais.
Simonetta aceitou o convite da amiga ministra, dizem que é pessoa competente, vamos ver quanto tempo vai demorar para se começarem a ouvir os seus gritos pelos corredores do Instituto, ou se, como deve fazer quem chefia, vai conseguir manter os problemas, que forçosamente enfrentará, dentro das paredes do seu gabinete.

sábado, maio 01, 2004

A demissão de Maria José Stock

Apesar de a tentação ser por vezes maior que o discernimento, a demissão de um responsável de uma qualquer área, deve ser entendida e comentada no preciso contexto em que é feita e não em função de um qualquer factor mais ou menos fundado em juízos de superfície por muito que eles nos digam. Quer isto dizer, que a demissão de Maria José Stock não pode ser comentada por um responsável político da oposição nos moldes emocionais em que o foi.
Este é precisamente o momento em que o que tem de ser salientado é a razão invocada para a saída por alguém consabidamente próxima de Durão Barroso. Ora MJS invoca precisamente motivos que se prendem com o facto de ser «uma pessoa de projecto quando ele é exequível, empenho-me com entusiasmo e espírito de missão; nesta altura não tenho condições para continuar», e porque «a dinâmica do instituto foi interrompida» Expresso online. Tanto uma como outra razões, nem vamos aqui considerar o facto de "sair por divergências com Manuela Franco, secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação" (DN), pois, naturalmente, decorrerão das duas acima referidas. Por isso, e mesmo que a sua acção possa demonstrar o contrário, o que deve aqui ser relevado é que este governo nem aos seus próprios correlegionários e amigos chegados, consegue fazer cumprir supostas promessas de "projecto" e "dinâmica". Que este governo, numa área em que a sua cegueira contabilística o impede de ver a importância estratégica e nacional, estrangulou de tal forma o Instituto, que até uma incondicional de Durão Barroso se vê obrigada a bater em retirada, arrastando consigo os vice presidentes.
Podemos sempre questionar-nos sobre o projecto a que se estará a referir MJS, dado que não nos foi possível descortinar qualquer semelhança entre os sucessivos erros nas decisões tomadas e declarações públicas desastrosas, com o que se possa vagamente aproximar do que seja um projecto. Podemos naturalmente questionar de que dinâmica estará a falar MJS, dado que, nada nestes dois anos decorridos sobre a sua presidência no IC, se parece com um leve laivo de dinamismo. Mas o que importa neste momento não é falar de um aspecto circunscrito à questão particular do desmoronar do que havia sido construído em Jacarta no período em que Ana Gomes foi uma excepcional embaixadora na Indonésia. O que importa neste momento mostrar ao país é o completo desmoronar do que havia sido estrategicamente construído para a Ásia, o ruir da estratégia concebida para África, a falta de uma ideia que seja para revitalizar os leitorados na Europa e na América. Talvez seja esta uma excelente oportunidade para questionar o Governo sobre a sua total ausência de política para a língua portuguesa no seio das instituições europeias, numa UE a 25.
O que mais interessava questionar nesta altura não era o facto de MJS se demitir agora depois de nada ter feito durante 2 anos, mas o facto de este Governo de direita não ter uma ideia que seja sobre o português no mundo, sobre a posição geoestratégica da Língua Portuguesa numa sociedade globalizada e de ter asfixiado o Instituto Camões com um desprezo, como nenhum outro governo ousou fazer.
Ao não fazer isto, o PS ficou-se pelo fait-divers e deixou passar o fundamental. Atacou pela paixão e negligenciou a razão e a essência da paralisia do Instituto Camões.

quinta-feira, abril 22, 2004

Antiguidade, história e tradição

Este espaço não foi pensado para falar de futebol. Mas neste caso também não é o futebol o assunto principal ele é apenas uma face de uma mentalidade e de uma forma de estar na cidadania.
Li num artigo do Expresso on-line, entre outras confissões e declarações sobre o assunto, que a corrupção no futebol é um facto histórico que remonta às suas raízes mais profundas. Assim sendo, pode com razão dizer-se que a corrupção no futebol constitui uma das suas tradições mais arreigadas. Logo a partir daqui tudo se explica. Se é tradição há que respeitar e defender, tal como as touradas de barrancos, entre outras. Nesta particular perspectiva, os corruptos do futebol português mais não são do que defensores e continuadores de uma longa tradição, logo, dignos de todo o nosso respeito. Ser corrupto, neste contexto futebolístico, é entender verdadeiramente o fenómeno desportivo e as suas raízes. Está tudo explicado!
Hoje, pelas esclarecedoras palavras proferidas aos microfones da TSF pelo imérito advogado do presidente do Gondomar Sport Club, fiquei também a saber de outra curiosa manifestação cultural profundamente arreigada nas gentes do norte e que marca profundamente uma diferença fundamental entre as gentes do sul e as do norte deste nosso Portugal tão repleto de tradições e afectos: assim, segundo este conhecedor da cultura nortenha; "as gentes do norte são mais amigas que as do sul, dão-se mais umas com as outras, são mais abertas e falam de tudo às claras", mais, "gostam de receber bem, nomeadamente os árbitros" pelo que, não há corrupção há, isso sim, amizade, tanto maior quanto maiores forem os presentes, mais gordos os envelopes, mais longas as viagens e estadas no Brasil e outras lembranças. Está mais uma vez tudo explicado e claro. Os tipos do sul é que são uns gosmas, uns mal intencionados e uns invejosos. Aquilo a que no sul se chama corrupção, no norte chama-se amizade. Ora todos ficámos a saber até onde vai a amizade naquelas boas e santas gentes nortenhas, segundo o sábio e profundo conhecedor da tradicional amizade nortenha que é este brilhante causídico. Provavelmente, para este ilustre João das Regras, aquilo a que no sul se chama trabalho infantil, no norte chamar-se-á ocupação de tempos livres ou educação pela arte.
Esta ilustração dada pelo defensor do Presidente do clube de Gondomar, faz-me pensar como, para este homem de leis, são gémeas as gentes do norte de Portugal e do sul de Itália ou da Sicília ou ainda da Córsega. Trata-se tudo de relações baseadas na mais sã e pura das amizades.
Eu que nasci na capital do Norte mas que fui criado no sul sinto-me agora mais desenraizado que nunca. Sinto que fui privado da mais profunda das minhas bases identitárias e que vivi todos estes anos a pensar maldosamente que um corrupto é um ser desprezível, um quisto numa sociedade moderna e democrática, quando descubro agora pela voz de um homem de direito, um advogado amigo do seu amigo, que aquilo que eu desprezava como ignóbil é, bem pelo contrário, a base da mais sã das convivências e a mais pura das relações humanas. Obrigado amigo advogado da minha região, a partir de hoje sou um homem novo. Um homem que vai poder finalmente viver de acordo com as tradições do seu povo, em paz consigo e, no futuro até, quem sabe, com os funcionários da finanças, os soldados da BT da GNR, da Divisão de trânsito da PSP, enfim com os homenzinhos verdes da EMEL, os fiscais de toda a espécie. Ah, como é bom podermos encontrar-nos com as nossas raízes e preservá-las no nosso quotidiano. Hoje percebi o mundo em que vivo e o Portugal moderno no seu abraço amigo e fraterno com a tradição.

segunda-feira, abril 05, 2004

Em branco

Saramago revelou-se um mestre do marketing capitalista. Conseguiu pôr o país político e a comunicação social a falar do seu último livro. Obrigou-os a comprarem-lhe o livro e alguns deles terão até lido a obra toda e não só aquelas páginas que lhes terão dito que eram as “fundamentais”. Até quem não o leu se viu de repente apto a falar sobre ele, dele e acerca dele. Fantástico!
Mas afinal, o que é que assustou esta gente toda? O facto de Saramago ter descoberto que o voto em branco é mais significativo que a não comparência ao acto de votar? Que votar em branco é um acto de vontade expressa, independentemente de corresponder ou não perante a lei, a um voto válido?
Ou o facto de a classe política preferir um não-voto, não-expresso, pela não-ida à assembleia de voto, a um voto exercido pelo cidadão eleitor, expresso pelo acto de não-preferência, por acreditar que as escolhas que lhe são postas no boletim de voto não correspondem a uma proposta válida e credível aos seus olhos e à sua inteligência, e pelo que isso significa de vontade manifesta de claramente dizer; eu uso o meu direito de voto para expressar que o que me é oferecido a escolher, não tem qualidade e eu como consumidor de democracia e beneficiário final das vossas políticas, exijo respeito pela minha cidadania e exijo que alterem o vosso comportamento e ponham a resolução dos meus problemas de cidadão antes da resolução dos vossos probleminhas clientelares.
Francamente, um indivíduo que não usufrui do seu direito de voto, que acha que o país e ele próprio não merecem a sua deslocação a uma assembleia de voto não é, em verdade, um cidadão, porque desse direito abdicou ao decidir não participar. O indivíduo que não vota não tem sequer o direito de vir depois queixar-se seja do que for. Ao não ir votar assumiu o compromisso de ser escravo das decisões de terceiros. A um indivíduo que declarara que não foi votar ou porque foi à praia ou porque “são todos uns aldrabões” como gostam de se desculpar, esquecendo-se de que são indivíduos como ele que perpetuam os supostos “aldrabões” no poder, não lhe admito sequer que diga mal do que está mal, porque ele abdicou da sua vontade de ter opinião quando lhe foi pedido que a desse, votando.
Votar ou não votar é uma prerrogativa de cada um, um chamado direito inalienável, mas se alguém escolheu não escolher, assuma também o que esse acto encerra de irresponsabilidade e não se queixe. Cale-se, que foi isso que elegeu. O silêncio cúmplice.
O eleitor que não vai votar é um eunuco político. Uma espécie de fruto murcho. O cidadão eleitor que por alguma razão vota em branco, repreende a classe política e é isso que enfurece muito e bom político, acham que um cidadão não pode ter a "petulância", a "insolência" de os chamar à razão.
Quem vota em branco, embora não faça uma opção no que o sistema lhe oferece, tem uma opinião. Ao contrário do que querem fazer crer, não é um voto anti-sistema, é um voto de alerta ao sistema para que se corrija e encontre respostas para as suas necessidades de cidadão. É um voto dentro do sistema e é isso que assusta a boa classe política que, arrogante, prefere perder para uma qualquer oposição (porque é a ilusão de uma perda “inter pares”) a perder para os que acham que os que deviam apresentar propostas que respondessem às necessidades dos eleitores, apresentam apenas propostas que de facto o não são, por gastas, já que esta derrota é “vertical”. É assim, com esta sobranceria, que uma boa parte da classe política vê os eleitores que acham que são os políticos que têm que mudar e não os cidadãos que têm de se acomodar.

Cultura cívica

Na semana passada o deputado irlandês John Deasy foi punido pelo seu próprio partido, Fine Gael, por ter fumado no bar do parlamento do Eire um dia depois de entrar em vigor a lei que proíbe fumar nos locais de trabalho. A consequência dessa violação da lei foi a sua imediata suspensão dos cargos que ocupava no partido e terá ainda de pagar uma multa que pode ir até aos 3.000 €, à justiça irlandesa. Parece que por aqueles lados o cumprimento da Lei não é facultativo como em Portugal é entendido por muita gente, como tristemente sublinhou o Presidente da República há algum tempo, havendo no entanto, ao que parece, muitos adeptos desta leitura da legislação nacional entre os representantes de órgãos de soberania.
Um desses fervorosos adeptos do carácter facultativo da Lei é o nosso Ministro da Cultura. Apanhado pelos repórteres da TVI a conduzir muito acima do que a Lei permite e, confrontado pelo jornalista que o apanhou em flagrante delito, com o facto, o ministro Pedro Manuel Cruz Roseta não só não mostrou qualquer sentimento de culpa, como justificou o caso de forma patética, alegando até que, como já não conduz à algum tempo, está com pouca prática. Donde se pode deduzir que quem conduz pouco não deve conduzir com cuidados redobrados porque não tem prática, deve, antes pelo contrário, conduzir bem depressa para mais rapidamente fazer os quilómetros necessários para repor a prática em dia. Disse ainda que ia atrasado para uma das suas actividades oficiais e que isso o “obrigou” a conduzir mais depressa. Nunca lhe terá passado pela cabeça sair mais cedo. Achou melhor legitimar todos os automobilistas que pensam como ele.
Naturalmente, nada consta que depois de ter tido conhecimento da violação da Lei pelo ministro, as autoridades rodoviárias tenham, à vista das provas registadas em vídeo, decidido proceder contra o Ministro da Cultura, nem consta que o Governo de que faz parte ou o Partido a que pertence o tenham destituído do que quer que fosse das suas responsabilidades político-partidárias.
Mas nada disto escandaliza quem quer que seja que tenha responsabilidades neste país. E porquê? Porque “todos” fazem o mesmo. Mais grave ainda, acham que têm esse direito. Dando assim razão à crença popular de que quem manda está acima da lei.
Pior ainda, há o sentimento de que este acto ilícito é um acto ilegal habitualmente praticado não só por este governo, mas igualmente pelos que lhe antecederam e não são estes agora que se vão privar de tal benesse, como se fora consignada no acto de posse.
Não é só este Ministro da Cultura que não tem Cultura Cívica, é toda uma classe que fecha os olhos, se ri da triste figura do ministro na televisão, mas não passando tudo, ao fim e ao cabo, de um programa de apanhados. Nada disto é para levar a sério.
Esta é apenas uma das faces da apagada e vil tristeza de quem deveria dar o exemplo do respeito pela Lei e apenas consegue alimentar a ideia enraizada entre os portugueses de que a lei se fez para violar, ignorar e desrespeitar e que quem é apanhado e multado ou condenado só o pode ser por ter tido um grande azar. E a polícia anda é na caça à multa, não é a fazer cumprir a lei.
Nas sociedades democráticas, quando quem tem por dever governar-nos e dar-nos exemplos de boas práticas, já não percebe que as pequenas infracções são apenas o biombo que esconde outras formas de desrespeito bem mais graves, que aquelas são a derradeira montra e não a primeira, estamos perante numa situação de agudíssima falta de cultura cívica e estamos a abrir a porta ao descrédito das instituições, dos seus representantes e do sistema que lhe serve de suporte.
Quando o sentimento de impunidade já é tão grande que as pequenas transgressões começam a transparecer e quem as faz já não as reconhece como tal é mais do que legítimo pensar que hoje desculpam-se as “coisas pequenas” amanhã vamos ter de desculpar o quê?
Lembro-me de dois exemplos completamente “despropositados” e sem relação com o acima descrito: Nova Iorque conseguiu ter sucesso na batalha contra o grande crime quando começou a combater sem excepção o pequeno delito. Hoje é das grandes cidades do mundo, talvez a mais segura; a maior parte dos cancros têm cura quando são detectados no início, isto é, quando estão nos primeiros estágios do seu desenvolvimento.
Longe de mim querer comparar a situação de desrespeito pela Lei e da sua aplicação, aos dois exemplos que me vieram ao pensamento.
Sintomas são sintomas, só isso. Não se respeita a Lei porque, como nos foi eloquentemente explicado por um juiz, esse desrespeito é de causa natural. Tão natural como a Lei do mais forte, a lei da sobrevivência das espécies. Volta Darwin, procuraste nas Galápagos o que tinhas tão mais perto na Europa.

quinta-feira, abril 01, 2004

1º de Abril

Por ser uma data que celebra a mentira que nos acompanha quotidianamente, o nosso governo, hoje, deveria falar verdade aos portugueses e, a título excepcional, e tendo em conta o estado das finanças públicas, os Portugueses que não são trabalhadores por conta de outrem deveriam falar verdade ao fisco (os outros não têm outro remédio).
Hoje, gostaria que o governo dissesse a verdade sobre o "caso da Bombardier/sorefame". Gostaria que o Governo falasse a verdade sobre o falhanço da sua política económica, sobre o verdadeiro significado da política da tanga, que de tão apregoada e repetida se tornou na única verdade confirmada deste governo. Esta "verdade", teve tal sucesso que os empresários estrangeiros acreditaram e foram-se embora. Agora, quanto mais o Governo fala em recuperação, mais os empresários vão recuperar para outras bandas. Em português, tanga não é só um calção curto, é também sinónimo de mentira. E é essa a tanga deste Governo.

Querer que o Governo da Nação fale hoje verdade apresenta-se como um desejo de anedotário, por isso, vou apenas respeitar um minuto de silêncio em memória dos Valores que a Verdade representa.

terça-feira, março 30, 2004

Que desgraça de Vasco Moura.

Será sempre um mistério o que leva um indivíduo com responsabilidades públicas como Vasco Graça Moura, a acusar os linguistas, como classe, científica e profissional, de se moverem pelo ódio à literatura. De ser tal a sua razão de ser e estar. Levado por esta declaração tão grave, não pude deixar de imaginar um bando de linguistas devorando livros com as suas próprias mãos, esventrando romances, expondo-lhes as entranhas num ritual dos danados, comandados pelas forças demoníacas da iliteracia, no altar dos adoradores de revistas cor-de-rosa, reality shows, Paulo Coelho e anedotas de mau gosto sobre escritores de estética intocável.
Por causa desta malévola imagem tive pesadelos.
Como pode alguém que vive do estudo e análise das virtualidades, encantos e vida da língua, odiar a literatura que é uma das suas manifestações mais complexas e irresistíveis?
Voltei a ler o artigo acusatório de Vasco Graça Moura e perguntei-me de onde vinha afinal o ódio à literatura. Li umas poucas semanas mais tarde, um auto acusatório agora dirigido a uma linguista que ousou responder-lhe e obtive finalmente a resposta. O ódio de que Vasco Graça Moura falava estava nele mesmo. E tomava-lhe o espírito e o discernimento. E crescia nele a cada parágrafo.
De repente lembrei-me de qual era, por mor do engenho deste homem, a causa de tão sanguíneo e voraz ódio: este homem era nem mais nem menos do que o celebrado tradutor de Dante e outros nomes geniais da literatura universal. Destroçado, por não conseguir na sua obra de autor, chegar nem de perto nem de longe ao valor dos que traduziu, a impotência tornou-se um tormento impossível de dominar que de tal sorte passou a subjugá-lo.
Vasco Graça Moura já não é mais ele, é um ser possuído pelo desamor, o rancor, o asco e a raiva.
Depois de ter percebido isto, desvaneceu-se afinal o mistério. Nessa noite sonhei até que Vasco Graça Moura fora possuído por um um ser cruel que dava pelo nome de Basco Engraçado Magrebino. E descansei. Não era o homem ponderado e rigoroso que falava, era a tal entidade por que estava possuído. E sendo outro, tudo se pode esperar, menos que só fale do que a razão dita que deve. Aquilo que tinha lido não detinha afinal a chancela, a validade do raciocínio e da responsabilidade, era apenas um dislate público que aos homens (quando não são eles mas outros, mas que os directores dos jornais não distinguem dos verdadeiros) conhecidos e famosos, os jornais proporcionam mais que ao simples mortal, que destes sucessos ficam assim protegidos. Estes conhecidos, por vezes políticos outras vezes desesperadamente a quererem ser lembrados, deixam-se ir em actos à maneira do Crepúsculo dos deuses e falam por se querer ouvir sem que o que dizem venha daquilo para que estariam ou teriam sido capacitados.
E, aliviado pela descoberta, nunca mais pensei no assunto. E continuei prazenteiramente a gostar de literatura... e de linguística.