quinta-feira, abril 22, 2004

Antiguidade, história e tradição

Este espaço não foi pensado para falar de futebol. Mas neste caso também não é o futebol o assunto principal ele é apenas uma face de uma mentalidade e de uma forma de estar na cidadania.
Li num artigo do Expresso on-line, entre outras confissões e declarações sobre o assunto, que a corrupção no futebol é um facto histórico que remonta às suas raízes mais profundas. Assim sendo, pode com razão dizer-se que a corrupção no futebol constitui uma das suas tradições mais arreigadas. Logo a partir daqui tudo se explica. Se é tradição há que respeitar e defender, tal como as touradas de barrancos, entre outras. Nesta particular perspectiva, os corruptos do futebol português mais não são do que defensores e continuadores de uma longa tradição, logo, dignos de todo o nosso respeito. Ser corrupto, neste contexto futebolístico, é entender verdadeiramente o fenómeno desportivo e as suas raízes. Está tudo explicado!
Hoje, pelas esclarecedoras palavras proferidas aos microfones da TSF pelo imérito advogado do presidente do Gondomar Sport Club, fiquei também a saber de outra curiosa manifestação cultural profundamente arreigada nas gentes do norte e que marca profundamente uma diferença fundamental entre as gentes do sul e as do norte deste nosso Portugal tão repleto de tradições e afectos: assim, segundo este conhecedor da cultura nortenha; "as gentes do norte são mais amigas que as do sul, dão-se mais umas com as outras, são mais abertas e falam de tudo às claras", mais, "gostam de receber bem, nomeadamente os árbitros" pelo que, não há corrupção há, isso sim, amizade, tanto maior quanto maiores forem os presentes, mais gordos os envelopes, mais longas as viagens e estadas no Brasil e outras lembranças. Está mais uma vez tudo explicado e claro. Os tipos do sul é que são uns gosmas, uns mal intencionados e uns invejosos. Aquilo a que no sul se chama corrupção, no norte chama-se amizade. Ora todos ficámos a saber até onde vai a amizade naquelas boas e santas gentes nortenhas, segundo o sábio e profundo conhecedor da tradicional amizade nortenha que é este brilhante causídico. Provavelmente, para este ilustre João das Regras, aquilo a que no sul se chama trabalho infantil, no norte chamar-se-á ocupação de tempos livres ou educação pela arte.
Esta ilustração dada pelo defensor do Presidente do clube de Gondomar, faz-me pensar como, para este homem de leis, são gémeas as gentes do norte de Portugal e do sul de Itália ou da Sicília ou ainda da Córsega. Trata-se tudo de relações baseadas na mais sã e pura das amizades.
Eu que nasci na capital do Norte mas que fui criado no sul sinto-me agora mais desenraizado que nunca. Sinto que fui privado da mais profunda das minhas bases identitárias e que vivi todos estes anos a pensar maldosamente que um corrupto é um ser desprezível, um quisto numa sociedade moderna e democrática, quando descubro agora pela voz de um homem de direito, um advogado amigo do seu amigo, que aquilo que eu desprezava como ignóbil é, bem pelo contrário, a base da mais sã das convivências e a mais pura das relações humanas. Obrigado amigo advogado da minha região, a partir de hoje sou um homem novo. Um homem que vai poder finalmente viver de acordo com as tradições do seu povo, em paz consigo e, no futuro até, quem sabe, com os funcionários da finanças, os soldados da BT da GNR, da Divisão de trânsito da PSP, enfim com os homenzinhos verdes da EMEL, os fiscais de toda a espécie. Ah, como é bom podermos encontrar-nos com as nossas raízes e preservá-las no nosso quotidiano. Hoje percebi o mundo em que vivo e o Portugal moderno no seu abraço amigo e fraterno com a tradição.

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