segunda-feira, abril 05, 2004

Em branco

Saramago revelou-se um mestre do marketing capitalista. Conseguiu pôr o país político e a comunicação social a falar do seu último livro. Obrigou-os a comprarem-lhe o livro e alguns deles terão até lido a obra toda e não só aquelas páginas que lhes terão dito que eram as “fundamentais”. Até quem não o leu se viu de repente apto a falar sobre ele, dele e acerca dele. Fantástico!
Mas afinal, o que é que assustou esta gente toda? O facto de Saramago ter descoberto que o voto em branco é mais significativo que a não comparência ao acto de votar? Que votar em branco é um acto de vontade expressa, independentemente de corresponder ou não perante a lei, a um voto válido?
Ou o facto de a classe política preferir um não-voto, não-expresso, pela não-ida à assembleia de voto, a um voto exercido pelo cidadão eleitor, expresso pelo acto de não-preferência, por acreditar que as escolhas que lhe são postas no boletim de voto não correspondem a uma proposta válida e credível aos seus olhos e à sua inteligência, e pelo que isso significa de vontade manifesta de claramente dizer; eu uso o meu direito de voto para expressar que o que me é oferecido a escolher, não tem qualidade e eu como consumidor de democracia e beneficiário final das vossas políticas, exijo respeito pela minha cidadania e exijo que alterem o vosso comportamento e ponham a resolução dos meus problemas de cidadão antes da resolução dos vossos probleminhas clientelares.
Francamente, um indivíduo que não usufrui do seu direito de voto, que acha que o país e ele próprio não merecem a sua deslocação a uma assembleia de voto não é, em verdade, um cidadão, porque desse direito abdicou ao decidir não participar. O indivíduo que não vota não tem sequer o direito de vir depois queixar-se seja do que for. Ao não ir votar assumiu o compromisso de ser escravo das decisões de terceiros. A um indivíduo que declarara que não foi votar ou porque foi à praia ou porque “são todos uns aldrabões” como gostam de se desculpar, esquecendo-se de que são indivíduos como ele que perpetuam os supostos “aldrabões” no poder, não lhe admito sequer que diga mal do que está mal, porque ele abdicou da sua vontade de ter opinião quando lhe foi pedido que a desse, votando.
Votar ou não votar é uma prerrogativa de cada um, um chamado direito inalienável, mas se alguém escolheu não escolher, assuma também o que esse acto encerra de irresponsabilidade e não se queixe. Cale-se, que foi isso que elegeu. O silêncio cúmplice.
O eleitor que não vai votar é um eunuco político. Uma espécie de fruto murcho. O cidadão eleitor que por alguma razão vota em branco, repreende a classe política e é isso que enfurece muito e bom político, acham que um cidadão não pode ter a "petulância", a "insolência" de os chamar à razão.
Quem vota em branco, embora não faça uma opção no que o sistema lhe oferece, tem uma opinião. Ao contrário do que querem fazer crer, não é um voto anti-sistema, é um voto de alerta ao sistema para que se corrija e encontre respostas para as suas necessidades de cidadão. É um voto dentro do sistema e é isso que assusta a boa classe política que, arrogante, prefere perder para uma qualquer oposição (porque é a ilusão de uma perda “inter pares”) a perder para os que acham que os que deviam apresentar propostas que respondessem às necessidades dos eleitores, apresentam apenas propostas que de facto o não são, por gastas, já que esta derrota é “vertical”. É assim, com esta sobranceria, que uma boa parte da classe política vê os eleitores que acham que são os políticos que têm que mudar e não os cidadãos que têm de se acomodar.

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