domingo, junho 27, 2004

O Reboque

Tenho sempre muita dificuldade em perceber porque é que o PS tem tanta atracção pelo abismo estratégico. Tenho sobretudo alguma dificuldade em perceber o porquê desta pressa em pedir eleições antecipadas se o actual primeiro ministro for convidado para presidir aos destinos da UE. Percebe-se mal esta pressa em não ficar para trás na corrida oposicionista a esta exigência extemporânea, sobretudo porque o PS tem muito mais a ganhar, do ponto de vista eleitoral, se não houver já eleições.
O PS nesta sua pressa irreflectida, esquece-se de que seria mais adequado mostrar-se responsavelmente próximo da serenidade e da seriedade do Presidente da República. Dar a entender que sabe que do ponto de vista legal e até democrático, o partido do poder tem toda a legitimidade para mudar o governo, porque essa é uma consequência das eleições de 2002. Por isso, ainda que eticamente, e não por via política, seja de considerar que os portugueses, in ultimas res, votaram num partido com uma cara e que agora lhe apresentam outra é, por via da Constituição, ao PR que cabe decidir se, do ponto de vista do bem maior do País, será melhor dissolver a AR e convocar novas eleições ou se é preferível manter o poder da actual maioria ainda que recentes eleições europeias permitam ler um profundo descontentamento no eleitorado face ao trabalho do actual governo.
Esta possibilidade de o primeiro ministro vir a ocupar a presidência da Comissão Europeia, desencadeou por parte deste, dos seus próximos e da comunicação social uma excitação púbere ao ponto de se ter tornado necessária uma intervenção do PR. Esta doença infantil do ex esquerdismo bem podia ficar solteira mas a quem convinha mostrar posição de estado e responsabilidade não o entendeu assim. Foi pena.
Todos sabemos que no PSD quando o guarda do covil parte, os lobos irrequietos partem para a luta fratricida. E um PSD autofágico só serve os interesses do PS.
Santana Lopes como primeiro ministro era o canto do cisne da coligação light. Uma posição ponderada do PS que se colasse à serenidade e responsabilidade do PR só teria vantagens. Curiosamente, quer Ferro Rodrigues quer os projectados candidatos a Vizir no lugar do Vizir, foram na mesma direcção.
Foi mais uma oportunidade arrastada na torrente das câmaras e dos telejornais.

Sem comentários: