sexta-feira, maio 28, 2004

Língua Portuguesa-0 Futebol-3

Eu sou adepto de futebol. É um desporto mágico e o seu fascínio justifica a sua popularidade. Para os políticos funciona como uma atracção irresistível, pela aparente popularidade que pode proporcionar se se souber estar do lado certo.
Vem isto a propósito da recente decisão do primeiro-ministro em estar presente na Final da Liga dos Campeões em detrimento da inauguração, por si anunciada no dia 15 de Maio, da Cátedra José Saramago na UNAM, Universidade Nacional Autónoma do México, a maior universidade da américa latina que conta há vários anos com um considerável número de docentes e estudantes de Língua Portuguesa, repartidos pelos seus três campus. Em vez de tomar uma decisão que de alguma forma indiciasse visão política e estratégica, donde se vislumbrasse importância que a Língua Portuguesa assume na agenda política deste governo, o primeiro-ministro preferiu a saída fácil, populista, e foi ao futebol. Língua Portuguesa-0 Futebol-1.
A oposição mostrou o seu desagrado com vigor, mas o seu simbólico reparo ficou-se pelo desrespeito pelas instituições e pelas relações de estado e o primeiro-ministro agradecido, respondeu como melhor sabe, com técnicas de agitação e propaganda tão ao seu gosto.
Completamente ausente das críticas ficou a Língua Portuguesa e não poderia ser de outra maneira já que a falta de consciência linguística e cultural que grassam entre governo e oposição são de tal ordem, que foram incapazes de ver onde estava o problema porque simplesmente não o conseguem reconhecer quando o têm perante si, nem o sentem como tal. Assim, a oposição atacou a árvore e deixou a floresta sossegada. Língua Portuguesa-0 Futebol-2.
Com a decisão que tomou o primeiro-ministro, mostrou a todos o lugar que a língua portuguesa ocupa nas preocupações do governo.
Por ter abordado a escolha do primeiro-ministro sem colocar a questão na sua verdadeira essência, a oposição mostrou porque existe um consenso nacional sobre uma não-política de língua portuguesa no mundo e não existe uma visão estratégica nacional para lidar com esta questão. Parece que todos acabam por concordar que as "coisas" da língua e da cultura são interessantes para os floreados e festas mas só isso e para isso.
Língua Portuguesa-0 Futebol-3 e o jogo ainda não acabou. Neste campeonato parece que a Língua Portuguesa está condenada a jogar para não descer de divisão. Neste campeonato a língua portuguesa em vez de ser parceiro é adversário e como parece que não é muito do agrado do público, está condenada a sucessivas derrotas por falta de adeptos e, na maior parte das vezes, ao que parece, até pela falta de jogadores.

sábado, maio 22, 2004

A hora do lobo

A noite preparava-se para passar para o dia seguinte. Mas quando tudo indicava uma noite vagamente salpicada pela chuva, eis que, por mor das teias que o governo tece, um ministro cai via telefone. Os mistérios da noite trazem-nos destas surpresas, causadas certamente pelo mau ambiente, ou pelas águas turvas das privatizações ou até, quem sabe, pela energética dança de cadeiras que se adivinhava em fundo. Este Governo gosta de lançar teias, mas não gosta que lhas teçam à sua volta. Quando se adivinhava a nova aurora, surge resplandecente, aproximando-se no horizonte, hei-lo, Cunha, que ao longe chega com a nova aurora, de nome lhe deram Arlindo, e veio para satisfazer o amo. E a paz volta à alcateia. E, no dia seguinte, à hora da novena, no covil se fez ajuntamento e todos à uma responderam em uníssono ao senhor, que no seu congresso os acolheu.

quarta-feira, maio 05, 2004

A nomeação de Simonetta Luz Afonso

Nada do que até agora foi referido como tendo sido dito por Simonetta Luz Afonso sobre a sua nomeação para a presidência do Instituto Camões, veja-se o artigo do Público de 4 de Abril, augura o que quer que seja de bom para a instituição ou, o que é mais grave, para a promoção da língua portuguesa no mundo. Não porque SLA não seja competente e profissional naquilo que até agora tem feito, isso até seria motivo de alguma esperança. As declarações que lhe são atribuídas é que denunciam um preocupante desconhecimento não só do Instituto como das tarefas que lhe estão atribuídas. SLA refugia-se em frases insípidas como "Os projectos para o Instituto Camões são os projectos que a lei orgânica define...", ou, "uma directora-geral segue a política do Governo e executa-a". Tudo isto é tão certo como estreito de vistas sobre a tarefa que aceitou tão rapidamente, e, aparentemente tão sem condições. A única referência interessante foi a que fez à atenção que pretenderá dar a Espanha, um mercado importante que tem sido negligentemente tratado. Mas o mais grave é que as palavras que lhe são atribuídas prenunciam uma total abandono do trabalho, que teima em não ser coerentemente feito, no que toca à promoção e difusão da Língua Portuguesa no mundo. Sobre a Língua Portuguesa nem uma palavra. Só cultura, leia-se só exposições e colaborações com museus, leia-se elitismo no pior sentido (nada tenho contra as elites desde que não sejam arrogantes e balofas o que é sempe sinónimo não de elite, mas de pedantismo ignorante). Mas mesmo esta intenção se lhe vai revelar difícil dado que, não havendo almoços grátis e não comportando o orçamento de gestão caseira quaisquer voos, não terá como pagar sequer os transportes das exposições, quanto mais a quem lhas faça, a não ser que resolva acabar com os leitorados que restam, nem terá dinheiro para comprar meia dúzia de livros para fingir que vai equipar as bibliotecas do Centros Culturais.
Simonetta aceitou o convite da amiga ministra, dizem que é pessoa competente, vamos ver quanto tempo vai demorar para se começarem a ouvir os seus gritos pelos corredores do Instituto, ou se, como deve fazer quem chefia, vai conseguir manter os problemas, que forçosamente enfrentará, dentro das paredes do seu gabinete.

sábado, maio 01, 2004

A demissão de Maria José Stock

Apesar de a tentação ser por vezes maior que o discernimento, a demissão de um responsável de uma qualquer área, deve ser entendida e comentada no preciso contexto em que é feita e não em função de um qualquer factor mais ou menos fundado em juízos de superfície por muito que eles nos digam. Quer isto dizer, que a demissão de Maria José Stock não pode ser comentada por um responsável político da oposição nos moldes emocionais em que o foi.
Este é precisamente o momento em que o que tem de ser salientado é a razão invocada para a saída por alguém consabidamente próxima de Durão Barroso. Ora MJS invoca precisamente motivos que se prendem com o facto de ser «uma pessoa de projecto quando ele é exequível, empenho-me com entusiasmo e espírito de missão; nesta altura não tenho condições para continuar», e porque «a dinâmica do instituto foi interrompida» Expresso online. Tanto uma como outra razões, nem vamos aqui considerar o facto de "sair por divergências com Manuela Franco, secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação" (DN), pois, naturalmente, decorrerão das duas acima referidas. Por isso, e mesmo que a sua acção possa demonstrar o contrário, o que deve aqui ser relevado é que este governo nem aos seus próprios correlegionários e amigos chegados, consegue fazer cumprir supostas promessas de "projecto" e "dinâmica". Que este governo, numa área em que a sua cegueira contabilística o impede de ver a importância estratégica e nacional, estrangulou de tal forma o Instituto, que até uma incondicional de Durão Barroso se vê obrigada a bater em retirada, arrastando consigo os vice presidentes.
Podemos sempre questionar-nos sobre o projecto a que se estará a referir MJS, dado que não nos foi possível descortinar qualquer semelhança entre os sucessivos erros nas decisões tomadas e declarações públicas desastrosas, com o que se possa vagamente aproximar do que seja um projecto. Podemos naturalmente questionar de que dinâmica estará a falar MJS, dado que, nada nestes dois anos decorridos sobre a sua presidência no IC, se parece com um leve laivo de dinamismo. Mas o que importa neste momento não é falar de um aspecto circunscrito à questão particular do desmoronar do que havia sido construído em Jacarta no período em que Ana Gomes foi uma excepcional embaixadora na Indonésia. O que importa neste momento mostrar ao país é o completo desmoronar do que havia sido estrategicamente construído para a Ásia, o ruir da estratégia concebida para África, a falta de uma ideia que seja para revitalizar os leitorados na Europa e na América. Talvez seja esta uma excelente oportunidade para questionar o Governo sobre a sua total ausência de política para a língua portuguesa no seio das instituições europeias, numa UE a 25.
O que mais interessava questionar nesta altura não era o facto de MJS se demitir agora depois de nada ter feito durante 2 anos, mas o facto de este Governo de direita não ter uma ideia que seja sobre o português no mundo, sobre a posição geoestratégica da Língua Portuguesa numa sociedade globalizada e de ter asfixiado o Instituto Camões com um desprezo, como nenhum outro governo ousou fazer.
Ao não fazer isto, o PS ficou-se pelo fait-divers e deixou passar o fundamental. Atacou pela paixão e negligenciou a razão e a essência da paralisia do Instituto Camões.