terça-feira, março 30, 2004

Que desgraça de Vasco Moura.

Será sempre um mistério o que leva um indivíduo com responsabilidades públicas como Vasco Graça Moura, a acusar os linguistas, como classe, científica e profissional, de se moverem pelo ódio à literatura. De ser tal a sua razão de ser e estar. Levado por esta declaração tão grave, não pude deixar de imaginar um bando de linguistas devorando livros com as suas próprias mãos, esventrando romances, expondo-lhes as entranhas num ritual dos danados, comandados pelas forças demoníacas da iliteracia, no altar dos adoradores de revistas cor-de-rosa, reality shows, Paulo Coelho e anedotas de mau gosto sobre escritores de estética intocável.
Por causa desta malévola imagem tive pesadelos.
Como pode alguém que vive do estudo e análise das virtualidades, encantos e vida da língua, odiar a literatura que é uma das suas manifestações mais complexas e irresistíveis?
Voltei a ler o artigo acusatório de Vasco Graça Moura e perguntei-me de onde vinha afinal o ódio à literatura. Li umas poucas semanas mais tarde, um auto acusatório agora dirigido a uma linguista que ousou responder-lhe e obtive finalmente a resposta. O ódio de que Vasco Graça Moura falava estava nele mesmo. E tomava-lhe o espírito e o discernimento. E crescia nele a cada parágrafo.
De repente lembrei-me de qual era, por mor do engenho deste homem, a causa de tão sanguíneo e voraz ódio: este homem era nem mais nem menos do que o celebrado tradutor de Dante e outros nomes geniais da literatura universal. Destroçado, por não conseguir na sua obra de autor, chegar nem de perto nem de longe ao valor dos que traduziu, a impotência tornou-se um tormento impossível de dominar que de tal sorte passou a subjugá-lo.
Vasco Graça Moura já não é mais ele, é um ser possuído pelo desamor, o rancor, o asco e a raiva.
Depois de ter percebido isto, desvaneceu-se afinal o mistério. Nessa noite sonhei até que Vasco Graça Moura fora possuído por um um ser cruel que dava pelo nome de Basco Engraçado Magrebino. E descansei. Não era o homem ponderado e rigoroso que falava, era a tal entidade por que estava possuído. E sendo outro, tudo se pode esperar, menos que só fale do que a razão dita que deve. Aquilo que tinha lido não detinha afinal a chancela, a validade do raciocínio e da responsabilidade, era apenas um dislate público que aos homens (quando não são eles mas outros, mas que os directores dos jornais não distinguem dos verdadeiros) conhecidos e famosos, os jornais proporcionam mais que ao simples mortal, que destes sucessos ficam assim protegidos. Estes conhecidos, por vezes políticos outras vezes desesperadamente a quererem ser lembrados, deixam-se ir em actos à maneira do Crepúsculo dos deuses e falam por se querer ouvir sem que o que dizem venha daquilo para que estariam ou teriam sido capacitados.
E, aliviado pela descoberta, nunca mais pensei no assunto. E continuei prazenteiramente a gostar de literatura... e de linguística.